Obesidade infantil não é brincadeira

Hoje 7,3% dos menores de cinco anos estão acima do peso,
sendo as meninas as mais afetadas

A obesidade e o sobrepeso vem aumentando no Brasil com uma tendência de crescimento entre as crianças. Estima-se que 7,3% dos menores de cinco anos estão acima do peso, sendo as meninas as mais afetadas de acordo com o “Panorama da Segurança Alimentar e Nutricional na América Latina e Caribe”, da FAO e Opas. São vários os fatores que geram obesidade infantil, desde a propensão genética, fatores alimentares, sedentarismo e doenças hormonais e metabólicas.

As curvas de crescimento da Organização Mundial da Saúde são os instrumentos técnicos que medem, monitoram e avaliam o crescimento de crianças e adolescentes de 0 a 19 anos. Desnutrição, sobrepeso, obesidade e condições associadas ao crescimento e à nutrição da criança podem ser detectadas através destas curvas, que consideram os pontos de corte para sobrepeso e obesidade os percentis 85 e 97, respectivamente.

Como as crianças estão em fase de crescimento, não há um índice fixo para identificar os pontos de corte de sobrepeso e obesidade, como no caso dos adultos em que um IMC acima de 25 caracteriza a doença. Então, é preciso medir altura e peso da criança para, depois, por meio das curvas, classificarmos a condição como magreza acentuada, magreza, eutrofia, sobrepeso, obesidade ou obesidade grave”, explica a Dra. Maria Julia Miele, nutricionista materno-infantil da plataforma Doctoralia.

O ambiente desempenha um papel muito importante na criação de uma criança e pode colaborar para o ganho de peso. De acordo com Maria Julia, a primeira situação que pode favorecer a possibilidade de uma criança se tornar obesa é a falta de atenção ou dificuldade dos pais durante a transição alimentar. “Entre a amamentação e a introdução às papinhas podem ocorrer erros na escolha dos alimentos. Isso pode impactar todo o futuro alimentar da criança. Pela praticidade, a escolha por alimentos industrializados, ricos em sódio, gorduras e açúcares impactarão negativamente na condição de saúde da criança”.

De acordo com a endocrinologista pediatra Renata Athie, também cadastrada na plataforma Doctoralia, “faz parte do instinto humano absorver ensinamentos. Desde os primeiros anos de vida, durante a amamentação, a criança começa a desenvolver uma memória dietética e metabólica. A educação alimentar pode e deve ser instituída o mais precoce possível, conforme se processa o desenvolvimento da criança. Os hábitos alimentares se processam principalmente até os dois anos de idade e serão os mesmos por toda a vida do indivíduo, se não houver preocupação em mudá-los”.

Por isso, “é fundamental que os pais reduzam a compra rotineira de alimentos e preparações hipercalóricas e incluam na prática rotineira das crianças movimentos espontâneos como correr, brincar, saltar, ir andando para a escola”, complementa Renata.

Além disso, as profissionais destacam que, no caso das crianças em fase de crescimento o excesso de peso compromete o desenvolvimento ósseo e das articulações, deixando-a cada vez mais indisposta à prática de atividades físicas. “Crianças e adultos com alimentação ruim tendem a ser mais irritados e a terem o sono prejudicado. Nas mulheres, a TPM também é mais intensa, com dores de cabeça mais expressivas. A má alimentação estabelece um quadro ruim que envolve a saúde e não apenas a aparência”, explica Maria Julia.

Alimentos ricos em fibras e nutrientes também são fundamentais para o bom funcionamento dos intestinos, responsáveis pela absorção dos nutrientes. “Uma colônia de bactérias ruins propiciará gripes passageiras frequentes ao organismo. Sem contar a fome oculta. Um organismo que se alimenta com grandes quantidades de comida pobre em nutrientes e rico em açúcar, sódio e gorduras acumulará peso facilmente, mas estará desnutrido e predisposto a inúmeras doenças”, explica Maria Julia. Renata complementa elencando a hipertensão, doenças pulmonares, osteoartrite, doença cardíaca e alguns tipos de câncer como as principais doenças decorrentes também da obesidade.

Mudança de hábitos vem da educação dada pelos pais

A medida preventiva da obesidade infantil é sempre a participação ativa dos pais em relação à alimentação dos filhos tanto no ambiente familiar quanto no ambiente escolar. Os pais devem, preferencialmente, optar por fornecer às crianças lanches saudáveis preparados em suas casas ao invés de fornecê-las dinheiro para que elas mesmas comprem suas refeiçoes nas cantinas das escolas. “Nos casos em que as refeições são fornecidas pela própria escola é importante que os pais ou responsáveis se certifiquem da qualidade da merenda escolar e sejam atuantes na melhora contínua desta alimentação”, afirma Renata.

Maria Julia destaca os biscoitos industrializados e os sucos de caixinha como os grandes vilões da má alimentação entre as crianças. “Muitos produtos industrializados que, inclusive, se intitulam saudáveis, contém uma grande quantidade de glicose, gordura e química que o corpo da criança não está pronto para receber. Também existe a falta de valorização das principais refeições e a falta de consumo de frutas, legumes e verduras. É preciso descascar mais e abrir menos latas e sacos”, afirma a nutricionista.

O tratamento da obesidade infantil consiste inicialmente no diagnóstico da causa da doença. “Sendo a causa hormonal ou metabólica, cabe ao médico instituir o tratamento medicamentoso adequado. Uma vez diagnosticada uma inadequação alimentar, psicológica e sedentarismo é imprescindível a orientação e o acompanhamento da equipe do médico endocrinologista infantil objetivando uma mudança comportamental, alimentar, além do estímulo à atividade física regular”, explica a endocrinologista.

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